segunda-feira, 6 de julho de 2026

"I hope you find some peace of mind in this lifetime. I hope you find some paradise."

 Semana passada, por conta de uma partida de futebol, eu finalmente entendi de verdade que tenho ódio de raça.

O que é bastante irônico, já que no Brasil eu sou lida como uma pessoa branca - mesmo tendo tido experiências negras, vivências negras, ter sofrido micro-agressões e ter visto macro-agressões. Lembro muito bem do meu pai tentando blindar os dois filhos contra o racismo, só pra ter um bomba explodindo no colo dia, em um dia de verão em 2000, em Aracaju. Com sete anos eu vi o racismo mostrar os dentes pro meu pai como um cão raivoso, e comecei a entender porque ele tinha tanta raiva.

Acho que foi também nessa idade que comecei a sentir raiva e comecei a reprimi-la. 

Todos os espaços que eu ocupei enquanto vivia no Brasil eram cheios de pessoas com ódio. Ódio de classe (esse eu também conheço muito bem), ódio de raça, ódio de gênero. O ódio que eu sempre senti podia se dar o luxo de seguir adormecido, porque sempre havia alguém pra sentir ódio por mim. Até eu escolher me mudar para um lugar que não era o meu, e perceber que todos os privilégios que eu tinha no Brasil eram frágeis. Desde então, todo o ódio que foi alimentado por décadas no meu inconsciente começou a aflorar. 

Não acho que o ódio que eu sinto seja um sentimento errado. A criação cristã causou muitos estragos a minha mente, e colocou muitos sentimentos em compartimentos com etiquetas de "certo" e "errado"; mas eu creio que esse ódio de raça, esse ódio colonial que eu sinto quando vejo um europeu se julgar melhor que alguém de um país colonizado, ou ter essa vida tão fácil que a maioria deles têm, eu sinto um ódio cego, paranoico. Desde que eu cruzei o oceano, eu tenho vivido meu próprio Inferno do Clouzot - a maoiria das interações com europeus me deixam num delírio cinematográfico. Eu entendo Soleil Ô ter sido um processo terapêutico pro Med Hondo. Se eu tivesse talento, eu também faria uma obra de arte surrealista sobre como o branco europeu trata qualquer pessoa que pareça diferente. 

Mas o problema do ódio, e mais especificamente esse ódio que eu sinto, é que ele é como um veneno. Eu sofro com esse copo de belladonna - ninguém mais. E eu não sei se aguento mais isso. Eu não sei mais o que fazer com esse ódio. 


"I've been going through something

One thousand eight hundred and fifty five days

I've been going through something

Be afraid"

sexta-feira, 1 de maio de 2026

exausta

Não sei se não me reconheço, ou se nunca me olhei no espelho com precisão. O espelho nunca é preciso, certo? Acho que não. 
Estou cansada. Acho que o tempo em que meu corpo vai me obrigar a fazer nada está chegando. 

sábado, 4 de abril de 2026

Às segundas eu faço caminhadas (ou gostaria, mas o inverno não me abandona)

Desde que semi abandonei minha vida online, voltei a ler livros. Não só os romances que me acalentam, mas os livros "sérios" que eu lia durante a faculdade, e antes. Eu me sinto melhor comigo mesma.
É meio chato pensar que me sinto produtiva, porque penso que me envolver com qualquer tipo de arte não deve passar por nenhuma espécie de medida; mas ao mesmo tempo, é muito bom não ser passiva. 
Eu cansei de deixar a vida passar e só consumir coisas sem pensar.

Eu vi um vídeo de uma professora de romeno falando que deu aulas para um chinês que aprendeu romeno em 3 meses. "É por isso que os chineses vão dominar o mundo!", ela falou rindo. Eu queria aprender hebraico em 3 meses, estudando 5h por dia. Queria aprender hebraico pra ter uma responsabilidade a menos, e marinar o tcheco por alguns anos mais. Eu queria voltar pro francês, mas acho que se eu tentar qualquer atividade que me fizesse sentir outro peso de responsabilidade, eu viraria o coringa.

Eu queria voltar a dançar. Também queria fazer parte de mais grupos, como o grupo do clube do livro. E queria deletar o instagram, o bluesky e o facebook, e viver sem precisar olhar a tela pequena e a tela média só pra aplacar a ansiedade que me aflige desde sempre. Quais eram as minhas chupetas antes da tela? Eu tento, tento, mas não consigo lembrar.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

33

Marte,
Eu acho que li menos livros nesse último ano, porque meu tempo foi apertadíssimo. Mas eu finalmente vejo uma luz no fim do túnel dos amigos: talvez eu os faça! Eu agora frequento um clube do libro de mulheres latinas, e é um dos únicos lugares aqui em que sinto mais eu - seja lá o que esse "eu" signifique. Ainda estou tentando me encontrar; acho que vai ser uma tarefa pra uma vida inteira.
Eu ando bem cansada, e li online que talvez seja síndrome de Ulisses. Talvez eu volte pro Brasil; talvez eu decida entrar de cabeça em outro hobby, como costurar ou brincar com cerâmica fria pra não me sentir tão maluca.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

sem tempo

 uma fermata em cima de todos os prazeres

os deveres em semifusa

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Enche o cu de francofonia e fala oui oui baguette

Esses dias eu reli alguns livros de uma série de romance que li no começo da faculdade. Passei três dias lendo no celular, assim como fazia em 2015, obcecada por casais que se casam em Las Vegas dois dias depois de se conhecerem, ficam de kikiki em San Diego e se pegam loucamente; o básico de um goiabinha contemporâneo entre jovens (Christina Lauren, rainhas!). O primeiro livro é sobre uma bailarina que sofre um acidente, e um advogado (blergh) francês (blergh). Enquanto a mocinha dava rolês e mais rolês em Paris  - porque sim, ela aceita passar o verão com um gostoso em Paris, mesmo não tendo certeza se o maluco é um PSICOPATA -, eu entrei numa espiral de obsessão... por Paris.

Esses últimos anos tem sido de descoberta e redescoberta de paixões.
Nesse meio tempo eu acabei voltando às atividades mais infantis que habitam meu coração: assistir anime, desenhar bobeiras com uma caixa enorme de lápis de cor ao meu lado enquanto o anime rola no fundo, olhar meus livros de piano e pensar em ensaiar (e sentir culpa por não ensaiar), ler livros fisicos e reler romances que li há pelo menos uma década. Alguns desejos também voltaram: bedazzling, não ter um smartphone, ser uma estudiosa de história da arte e... aprender francês.

A única língua que eu sempre quis aprender foi o francês. Os primeiros filmes esquisitos que eu assisti sozinha no TC Cult e no Eurochannel foram em francês; meu primeiro contato com filosofia foi em francês. Em 2013, quando eu passei um ano aprendendo francês haitiano e um universo de afro-francofonia se abriu pra mim (emmène moi avec toi PRA SEMPREE!), eu sabia que seria uma paixão pra vida toda... ou algo que eu amaria odiar. 

O lance do francês é que não é só o francês. Se fosse só passé composé e a transformação maluca de fonemas, eu acho que ninguém seria obcecado por francês. É toda a propaganda da França. É toda a propaganda de Paris e das cidades pequenas que parecem uma gracinha, é o champagne que só pode ser champagne se for de Champagne. Na primeira das duas vezes em que eu estudei francês na Aliança Francesa, minha professora comentou de um jeito meio ácido (que saudade de professor FFLCH) que a francofonia não era só sobre a língua; logo em seguida ela contou histórias oníricas sobre o período em que estudou em Paris. Por muitos anos eu tentei menosprezar Paris e o francês - principalmente depois de conhecer alguns franceses, mudar pra Europa e ver o nível de ignorância e xenofobia dos franceses... até visitar Paris.

Em abril desse ano eu visitei Paris por três dias, na Páscoa. A única maneira que posso descrever minha relação com a cidade é... eu deitei. Deitei pra Paris. Foram três dias chuvosos em que eu andei pelo menos 20km por dia, voltei pra Praga com uma possível inflamação no tendão de tanto andar, comi todas as sobremesas possíveis e tudo de pâtisserie, tomei o infame champagne... e amei tudo. Voltei a ter 14 anos e voltei a ter sonhos. Desde então eu sonho de novo com Sorbonne, estudar em Paris e ouvir a Ella Fitzgerald cantar "April in Paris" no meu fone de ouvido enquanto caminho mais 20 km junto com os ratatouilles. Ler um romance em que a protagonista vive um sonho de classe média em Paris foi uma delícia, e me fez sonhar mais uma vez.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Dores de idade ou de maluquice

 Eu acho muito curioso como vários anos de análise e autoanálise agem no meu consciente.

Não tenho consigo dormir nas últimas semanas, mesmo estando de férias e teoricamente não tendo nenhum preocupação. Claro que sempre tenho a sombra de algo sobre mim - estudar hebraico ou tcheco, sair de casa pra me exercitar, tocar piano (ou tentar). Sempre tenho que fazer algo. Não lembro de um dia na vida em que a sombra de uma obrigação não estivesse ali. Mas eu me dou alguns dias e vivo como uma camponesa, sem me preocupar ativamente com coisa alguma.

Ontem contei aos meus pais que parei o doutorado e comecei a trabalhar. 

A culpa e o fracasso que vem me acompanhando nos últimos tempos voltaram com força total; ler um romance bobinho dessa nova autora que parou o doutorado pra escrever romances (ah...!) também não ajudou. Mas hoje eu consegui dormir 8h seguidas e as dores no corpo que eu vinha sentindo sumiram. Puf! Milagre.


ps. obviamente meus pais esqueceram tudo o que me disseram quando eu ligava chorando ("não aguento mais o doutorado!) e disseram que só queriam que eu fosse feliz. E meu pai meteu alguns comentários semi-maldosos no meio do áudio (de 5 minutos!) de apoio. Mas meu pai vai ser sempre meu pai.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

 doce de leite com gruminhos e músicas do roberto carlos e do roberto villar

cordel recitado pra mim e pros meus amigos, palavras cruzadas feitas com lápis pequeno

amor incondicional, sem expectativas, sem julgamentos.

nos dias em que eu não conseguir ser feliz por mim, vó, eu vou ser feliz pela senhora 

sábado, 24 de maio de 2025

Terapia

 Dei mil voltas pelo mundo pra terminar chorando na frente de uma câmera por causa dos meus pais.

Tenho pensado muito sobre como não aguento nem minha rotina, e fico pensando em ter filhos. "Não sei se vou aguentar", eu falo pro meu companheiro todas as vezes que preciso pedir um pedaço de bolo de chocolate por delivery porque estou doente, porque não consigo dormir pensando nas coisas que devo fazer, ou quando não consigo fazer feijão e frango pro almoço da semana. Ele faz o feijão e o frango, pede o bolo e leva pra minha mesa de trabalho, e diz que "pai e mãe sempre dão um jeito". 

Talvez não devesse ser assim.


(Eu queria que meus pais fizessem terapia)

sábado, 22 de fevereiro de 2025

32

 Essa semana ouvi 22 da Lily Allen e não consegui lembrar direito do que eu estava fazendo quando tinha 22 anos, mas lembrei que tinha muitos sonhos.

Eu faço 32 essa essa semana e quase nada do que eu sonhei se concretizou. 

Eu ainda não sei muito bem quem sou, porque tudo que eu era tinha a ver com um mundo acadêmico que não era o meu. Eu também não fiquei fluente em 5 idiomas antes dos 30 - eu falo 3, em 2 eu arranho e 1 eu comecei a aprender agora - então eu considero um bônus estar na sexta língua (e uma eslava!). Não visitei os lugares que eu queria, mas visitei outros igualmente interessantes. Eu não imaginava que casaria e que meu maior dilema agora fosse em qual país morar, mas aqui estamos. 

Apesar de ter um mês angustiante, aqui estamos. 

Então acho que tá tudo bem por enquanto, Marte. 

domingo, 26 de janeiro de 2025

Chau!

Eu exclui minha conta do twitter depois de ler que o Elon Musk fez um discurso inflamado numa conferência do partido neo-nazista alemão. Foram 16 anos me expondo, fazendo colegas e amigos, rindo pra tela do celular, ficando ansiosa com notícias do mundo e fazendo muito doomscrolling naquela timeline. Doeu. Passei quase um ano namorando a decisão, até o rompimento. 

Talvez agora eu responda mais as pessoas no whatsapp, e consiga me conectar de verdade com pessoas que querem saber de mim. Mas ao mesmo tempo eu sinto como se parte minha tivesse morrido um pouco. 

domingo, 3 de novembro de 2024

O tempo em minhas mãos

Eu nunca tive pés macios ou mãos macias. 

Lembro de quando tinha 7 anos e viajei de carro pela primeira vez. Nós saímos de Rondônia e fomos até Recife com algumas fitas cassetes (eu lembro direitinho da trilha sonora de Porto dos Milagres por conta dessa viagem) e alguns travesseiros pra que eu meu irmãos dormíssemos no carro. Foi nessa viagem que eu senti meu corpo como "errado" pela primeira vez, quando o guia turístico de Salvador me chamou de gordinha porque eu usei uma blusa do Olodum que mostrava minha barriga (e nunca mais mostrei a barriga desde então, e passei o resto da viagem me cobrindo. Foi minha primeira vez vendo o mar, e eu só me preocupava em cobrir a barriga). Foi também nessa viagem que eu conheci uma menina franco-brasileira na pousada em que ficamos em Barra de São Miguel, e descobri que minhas mãos não eram femininas. Nós brincamos por alguns dias na piscina da pousada, e em algum momento ela fez aniversário. Os pais dela me pediram pra distraí-la enquanto eles preparavam um bolo com refrigerante, e eu lembro de estarmos no quarto e eu pegar na mão dela pra brincar de roda. As mãos dela eram macias como eu nunca tinha visto - as minhas não eram, as da minha mãe não eram, as da minha avó não eram.
Eu lembro de sentir vergonha. O meu corpo era tão errado que até minhas mãos eram erradas.

Minha mãe sempre disse que eu tinha dedos longos como os da minha tia. 
Minha mãe nunca pintou as unhas das mãos, porque até hoje ela lava metade de todas as roupas de todo mundo de casa no tanque. Só calça jeans, toalhas e roupas de cama vão pra máquina de lavar - o resto é todo lavado na mão. Então ela nunca pintou as unhas da mão, nunca hidratou as mãos e nem nunca ligou muito pra elas. Os dedos dela são curtos e ligeiramente engelhados, as unhas estão sempre bem curtas e lixadas. Eu gostava de ter mãos diferentes da minha mãe. Comecei a pintar as unhas com 11 anos, e sempre que eu podia eu deixava as unhas compridas. Esse era o meu traço feminino. Eu podia ser gordinha, eu podia ter as olheiras mais fundas entre todos os meus amigos, eu podia andar com o cabelo assanhado quase o tempo todo. Mas eu tinha dedos compridos e unhas compridas. Eu tinha mãos de pianista. Pelo menos nisso eu era feminina. Até que um dia no intercâmbio, a moça japonesa que morava comigo fez unhas de gel em mim. Era uma combinação de purpurina azul e dourada, e eu amei tanto que tirei uma foto e mandei pra todos os meus amigos que estavam me acompanhando estourar o limite do cartão de crédito da minha mãe em Londres. O único comentário que me marcou foi um "lindo! Mas acho que você precisa dar uma hidratadinha na sua mão, né?". Eu hidratava minhas mãos todos os dias, por causa do frio. Não era falta de hidratação - era só a minha mão se tornando mais parecida com a mão da minha mãe, mais enrugada. 
Minhas mãos já não era femininas o suficiente.

Minha mão direita sempre foi problemática. 
Como eu escrevo e faço praticamente tudo com ela, eu tenho vários calos nos dedos. Uma vez eu tive uma verruga estranha no dedo anelar, e logo em seguida cortei o dedo médio com uma garrafa de suco de uva. Mas minha mão esquerda era linda. Eu consigo pintar as unhas da mão esquerda com mais destreza, então elas sempre pareciam estar mais arrumadas. Não tinham nenhum corte, nenhuma cicatriz. Minha mão esquerda era uma mão meramente ilustrativa, até eu quebrar duas falanges enquanto bricava de rouba bandeira na rua. Eu já era adulta, já estava na faculdade. Depois de sair de uma cirurgia horrível (eu acordei tremendo de frio e o cirurgião estava ouvindo Coldplay, alucinei horrores com o sedativo que me deram, não dormi a noite inteira porque fiquei paranoica), a primeira coisa que pensei foi que minha mão não seria mais uma mão meramente ilustrativa. Ela teria cicatrizes. Passei 6 semanas com a mão imobilizada com fios de kirschner, e mais alguns meses fazendo fisioterapia. Eu lembro da dor lancinante quando eu tentava mexer os dedos depois de tirar os fios, e da sensação de vitória quando consegui fechar a mão. 
A mão já não era mais perfeita, mas agora combinava com o resto do meu corpo - não era pefeiro, mas tinha uma história.

Há algumas semanas eu notei que tenho calos permanentes nos dedos dos pés. 
Eu lembro de perguntar pra minha mãe porque ela tinha calos tão grossos nos pés. Ela lixava, hidratava e os calos continuavam lá. Eu lembro de me achar sortuda por não ter esses calos, apesar de achar meus pés feios - eu achava que eles tinham um formato estranho e apesar de não ter calos nos dedos, os calcanhares já davam sinais de que rachariam no futuro. Eles racharam, os dedos calejaram. Em Julho desse ano, eu até comprei uma daquelas máscaras que fazem peeling, mas a única coisa que elas fizeram foi deixar rastros de pele por toda a casa. Então numa quarta-feira fria, eu entendi que teria calos dos dedos dos pés como a minha mãe. Toda vez que toco nos pés, eu lembro da minha mãe. Minhas mãos também são como as da minha mãe agora, e consequentemente são como as da minha avó. Os meus dedos enrugados não tem as mesmas queimaduras que os dedos da minha avó tem, porque ela fazia doces pra vender na feira. Mas eles tem um pouco dela. Minha avó pode morrer a qualquer momento desde o ano passado. Todas as notificações de mensagem, todas as ligações que eu recebo são sempre ligeiramente assustadoras, porque podem ser notícias da minha avó. Mas quando eu pego o telefone e olho para as minhas mãos parecidas com as dela, eu lembro que a vida é assim mesmo.
Minha avó é mais forte e feminina que qualquer mão macia. 


quarta-feira, 12 de junho de 2024

360

Numa quinta-feira de abril, eu mandei o e-mail desistindo do doutorado. 
Foram meses de preparação. Eu escrevi o e-mail no word e deixei salvo. Algumas semanas depois eu copiei e colei o texto no gmail, que ficou como rascunho por semanas. Um dia de manhã, eu abri a pasta de rascunhos, enviei e desliguei o celular. Às vezes eu acho que essa preparação começou no dia 7 de outubro de 2023, quando começou a guerra. Parte do meu cérebro tomou uma decisão ali. Ali também começou meu processo de luto pessoal, por uma carreira que nunca cheguei a ter, e nem sei se um dia eu sonhei de verdade em ter. 
Talvez eu só queira um diploma, um pedaço de papel, pra provar que sou alguma coisa.
Desde então, eu me sinto nadando em alto mar.
Alguns dias depois meu marido me sugeriu fazer o CELTA, pra conseguir outro pedaço de papel que me abriria as portas. Por um mês eu fiz o percurso de Anděl a Budějovická, e quase todos os dias eu ouvia Marinheiro só e chorava um pouco - metade do choro era estresse por conta do curso (agora faço parte do clube "Cambdridge me fez chorar"), metade era por medo; "marinheiro marinheiro, quem tem ensinou a nadar? ou foi o tombo do navio, ou foi o balanço do mar).
Eu nunca soube muito bem pra onde eu tava indo, mas agora tem um mundo aqui na minha frente.

Semana que vem eu vou caminhar pelo centro pra me sentir fazendo o mesmo caminho que o Kafka fazia. 

segunda-feira, 8 de abril de 2024

mantra 3.1

 eu vou conseguir mandar esse e-mail

e eu vou conseguir recomeçar minha vida do zero

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Blackbird

 Sábado passado eu casei. Alguns amigos que moram em São Paulo vieram pra cá, minha melhor amiga e meus pais vieram de Porto Velho, e na hora da cerimônia mesmo eu senti vontade de fugir pra Gretna Green.

Eu realmente não gosto de grandes cerimônias, ou de todos os olhos voltados para mim. 

Eu também estou há milímetros de tomar uma das maiores decisões da minha vida. E vai ser só minha.


"All your life, you were only waiting for this moment to arrive.

Blackbird: fly. Into the light of a dark, black night."

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

No milésimo dia desse mês quase eterno

 Tomei minha primeira multa de trânsito e 4 pontos na carteira (e provavelmente em menos de um mês a outra multa chega) e estou há algumas horas abrindo o aplicativo do Gmail em estado de negação. "Nunca mais vou dirigir" - é o que se passa na minha cabeça (realidade: semana que vem preciso pegar a estrada de novo pra buscar alguém no aeroporto. Aliás, nem preciso ir tão longe: preciso pegar o carro na sexta-feira para ir à fisioterapia, e na volta preciso passar no mercado mais barato para comprar atum enlatado). 

Depois dos 25 minha vida virou um esquete de comédia em que a protagonista diz "nunca mais vou fazer isso!", e logo em seguida corta pra ela fazendo exatamente isto. Meus pais reclamam sempre que eu só faço o que quero, mas no meu coração eu sinto que estou sempre fazendo coisas que odeio (talvez eles digam isso porque eu só não faço o que eles querem). 

Estou na segunda sessão de fisioterapia e meu pé dói menos. Hoje eu me peguei esticando os pés e a dor usual que sinto não apareceu. Tive um momento de revelação muito parecido com o momento de revelação que tive depois de 2 meses de fisioterapia depois de operar os dedos - uau, fisioterapia funciona, o mundo é lindo, eu amo a ciência!

Hoje também me senti fracassada, e já comecei a pensar no banzo que a Europa vai me causar em alguns meses. E como sempre, eu acalentei essa tristeza, pensando ali que não tenho ninguém por mim em Praga além do Matous. Tudo o que quero esse ano é entrar em acordo com essa realidade. 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

'I'm not here, this isn't happening"

Nesse momento da vida em que nada de fora faz sentido, eu me encontro cada dia mais olhando pra dentro e pra trás. Talvez porque olhar pra frente, além de me causar um mal estar tremendo, não faz muito sentido justamente por eu não sentir vontade de ir pra frente. Ter investido todas as minhas forças numa vida intelectual e acadêmica não me rendeu nada, e ter feito toda a minha personalidade girar em torno disso só fez com que no momento em que eu não quis mais ser uma intelectual, tudo fosse abaixo. Todos esses anos em escolas, universidades, cursinhos, salas de aula, foram só pedaços de um castelo de ar que começou a ruir há 3 anos. Eu sigo dentro desse castelo e ele está pegando fogo. Eu não sei como sair, e sinto que todas as pessoas em que eu confio também não querem que eu saia dele.

Eu só queria parar. Só um pouquinho.

Desde 2020 alguns gostos que eu tive na adolescência voltaram. Eu voltei a ver e rever animes, aos poucos estou abandonando as redes, voltei a ver filmes e até a ler livros físicos. Meu maior feito do ano passado foi ter terminado "Terra estranha" do James Baldwin. Levou meses. Eu lia algumas páginas todas noites, e foi dolorido - que loucura que um livro em 1962 ressoe tão forte hoje, não?

Também li alguns romances. Nada memorável. Nada como uma trilogia da Nora Roberts, uma série da Meg Cabot ou até mesmo a pior melhor série que li durante a faculdade (Stage Dive). Acho que sinto falta de algo que me deixe obcecada, que vire minha vida de cabeça pra baixo e me mude completamente. A coisa mais próxima que me causou esse sentimento transpassante foi "Aftersun"; chorei por horas depois de assistir, levei pra terapia diversas vezes e passei meses pensando nesse filme. De vez em quando ainda penso. Principalmente porque ando pensando bastante em ser mãe.

Essa semana o John Galliano fez um retorno triunfal com uma coleçao da Maison Margiela e eu lembrei de quando tinha 12 anos e quis ser estilista. Meu sonho era morar em São Paulo e estudar Moda na Santa Marcelina - fui uma criança semi-criativa, e nessa fase do anime eu gostava de desenhar mulheres e roupas. Esse sonho morreu assim que eu entendi que ter um corpo gordo seria uma pedra no meu caminho; ficou só o sonho de São Paulo mesmo. Eu era tão obcecada pelo Galliano, que fui algumas vezes até a Harrods atrás de um perfume dele. Nunca comprava. Só ficava admirando o frasco pensando que um dia eu teria dinheiro suficiente para ter várias coisas bonitas, incluindo aquele perfume. Nessa época eu também sonhava em ir a um show da Madonna com meu pai, e hoje sei que é muito provável que isso não aconteça. Alguns anos depois de namorar o perfume do Galliano pela vitrine, ele foi demitido da Dior por ser racista. Perdi todo o encanto. O sonho morreu. Meu sonho de ver um show da Madonna com meu pai talvez esteja definhando também - talvez essa seja a última turnê dela, talvez eu não more no Brasil. Envelhecer parece ser ter muita certeza na montanha de "talvez" que a vida vai nos jogando.


E ah. Em algumas semanas eu vou casar.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

talvez?

 mesmo perdida, eu sinto que aos poucos eu estou voltando a ser eu 

domingo, 7 de janeiro de 2024

Eu quero acreditar que a Anistia Internacional e o C1 em francês não me tornariam alguém feliz

 Eu um dia quis mudar o mundo, até meu mundo acabar um pouco. Aí decidi que só queria ser feliz. Mas acho que sempre ficou ali um resquício dessa vontade, misturada com um sentimento de fracasso (que sempre me acompanhou em quase todos os âmbitos de vida). Eu nem tentei mudar o mundo - não do jeito clássico, óbvio, de quem trabalha em ONG, coloca a mão na massa. Claro que cada ser humano pode mudar muita coisa em proporções menores; talvez a "escolha" de ser professora tenha sido causada por esse desejo de mudar alguma coisa. 

Eu nunca estive tão perdida profissionalmente. E por conta dessa sensação, de estar nesse deserto, sozinha, caminhando sem nem ver um oásis, tudo que se relaciona com minha falta de vida profissional ou com a vida profissional que eu poderia ter tido me machuca de maneiras inimagináveis. Alguns fantasmas do meu passado voltam para me assombrar; fantasmas que eu nem sabia que existiam, mas toda vez que aparecem, eu acabo entrando numa grande espiral de crise existencial.

Hoje eu chorei no ombro do meu amor, listando todas as minhas frustrações; chorei porque os remédios que eu tomo para perder peso só me dão nausea, e porque meus pés doem. Chorei porque estar nesse deserto é horrível. Chorei porque não tenho coragem de fazer o que precisa ser feito.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

"don't deceive your free will at all, just receive it"

 de "eu não consigo fazer amigos aqui" pra "eu não preciso fazer amigos aqui"