Semana passada, por conta de uma partida de futebol, eu finalmente entendi de verdade que tenho ódio de raça.
O que é bastante irônico, já que no Brasil eu sou lida como uma pessoa branca - mesmo tendo tido experiências negras, vivências negras, ter sofrido micro-agressões e ter visto macro-agressões. Lembro muito bem do meu pai tentando blindar os dois filhos contra o racismo, só pra ter um bomba explodindo no colo dia, em um dia de verão em 2000, em Aracaju. Com sete anos eu vi o racismo mostrar os dentes pro meu pai como um cão raivoso, e comecei a entender porque ele tinha tanta raiva.
Acho que foi também nessa idade que comecei a sentir raiva e comecei a reprimi-la.
Todos os espaços que eu ocupei enquanto vivia no Brasil eram cheios de pessoas com ódio. Ódio de classe (esse eu também conheço muito bem), ódio de raça, ódio de gênero. O ódio que eu sempre senti podia se dar o luxo de seguir adormecido, porque sempre havia alguém pra sentir ódio por mim. Até eu escolher me mudar para um lugar que não era o meu, e perceber que todos os privilégios que eu tinha no Brasil eram frágeis. Desde então, todo o ódio que foi alimentado por décadas no meu insconciente começou a aflorar.
Não acho que o ódio que eu sinto seja um sentimento errado. A criação cristã causou muitos estragos a minha mente, e colocou muitos sentimentos em compartimentos com etiquetas de "certo" e "errado"; mas eu creio que esse ódio de raça, esse ódio colonial que eu sinto quando vejo um europeu se julgar melhor que alguém de um país colonizado, ou ter essa vida tão fácil que a maioria deles têm, eu sinto um ódio cego, paranoico. Desde que eu cruzei o oceano, eu tenho vivido meu próprio Inferno do Clouzot - a maoiria das interações com europeus me deixam num delírio cinematográfico. Eu entendo Soleil Ô ter sido um processo terapêutico pro Med Hondo. Se eu tivesse talento, eu também faria uma obra de arte surrealista sobre como o branco europeu trata qualquer pessoa que pareça diferente.
Mas o problema do ódio, e mais especificamente esse ódio que eu sinto, é que ele é como um veneno. Eu sofro com esse copo de belladonna - ninguém mais. E eu não sei se aguento mais isso. Eu não sei mais o que fazer com esse ódio.
"I've been going through something
One thousand eight hundred and fifty five days
I've been going through something
Be afraid"