segunda-feira, 6 de julho de 2026

"I hope you find some peace of mind in this lifetime. I hope you find some paradise."

 Semana passada, por conta de uma partida de futebol, eu finalmente entendi de verdade que tenho ódio de raça.

O que é bastante irônico, já que no Brasil eu sou lida como uma pessoa branca - mesmo tendo tido experiências negras, vivências negras, ter sofrido micro-agressões e ter visto macro-agressões. Lembro muito bem do meu pai tentando blindar os dois filhos contra o racismo, só pra ter um bomba explodindo no colo dia, em um dia de verão em 2000, em Aracaju. Com sete anos eu vi o racismo mostrar os dentes pro meu pai como um cão raivoso, e comecei a entender porque ele tinha tanta raiva.

Acho que foi também nessa idade que comecei a sentir raiva e comecei a reprimi-la. 

Todos os espaços que eu ocupei enquanto vivia no Brasil eram cheios de pessoas com ódio. Ódio de classe (esse eu também conheço muito bem), ódio de raça, ódio de gênero. O ódio que eu sempre senti podia se dar o luxo de seguir adormecido, porque sempre havia alguém pra sentir ódio por mim. Até eu escolher me mudar para um lugar que não era o meu, e perceber que todos os privilégios que eu tinha no Brasil eram frágeis. Desde então, todo o ódio que foi alimentado por décadas no meu insconciente começou a aflorar. 

Não acho que o ódio que eu sinto seja um sentimento errado. A criação cristã causou muitos estragos a minha mente, e colocou muitos sentimentos em compartimentos com etiquetas de "certo" e "errado"; mas eu creio que esse ódio de raça, esse ódio colonial que eu sinto quando vejo um europeu se julgar melhor que alguém de um país colonizado, ou ter essa vida tão fácil que a maioria deles têm, eu sinto um ódio cego, paranoico. Desde que eu cruzei o oceano, eu tenho vivido meu próprio Inferno do Clouzot - a maoiria das interações com europeus me deixam num delírio cinematográfico. Eu entendo Soleil Ô ter sido um processo terapêutico pro Med Hondo. Se eu tivesse talento, eu também faria uma obra de arte surrealista sobre como o branco europeu trata qualquer pessoa que pareça diferente. 

Mas o problema do ódio, e mais especificamente esse ódio que eu sinto, é que ele é como um veneno. Eu sofro com esse copo de belladonna - ninguém mais. E eu não sei se aguento mais isso. Eu não sei mais o que fazer com esse ódio. 


"I've been going through something

One thousand eight hundred and fifty five days

I've been going through something

Be afraid"

sexta-feira, 1 de maio de 2026

exausta

Não sei se não me reconheço, ou se nunca me olhei no espelho com precisão. O espelho nunca é preciso, certo? Acho que não. 
Estou cansada. Acho que o tempo em que meu corpo vai me obrigar a fazer nada está chegando. 

sábado, 4 de abril de 2026

Às segundas eu faço caminhadas (ou gostaria, mas o inverno não me abandona)

Desde que semi abandonei minha vida online, voltei a ler livros. Não só os romances que me acalentam, mas os livros "sérios" que eu lia durante a faculdade, e antes. Eu me sinto melhor comigo mesma.
É meio chato pensar que me sinto produtiva, porque penso que me envolver com qualquer tipo de arte não deve passar por nenhuma espécie de medida; mas ao mesmo tempo, é muito bom não ser passiva. 
Eu cansei de deixar a vida passar e só consumir coisas sem pensar.

Eu vi um vídeo de uma professora de romeno falando que deu aulas para um chinês que aprendeu romeno em 3 meses. "É por isso que os chineses vão dominar o mundo!", ela falou rindo. Eu queria aprender hebraico em 3 meses, estudando 5h por dia. Queria aprender hebraico pra ter uma responsabilidade a menos, e marinar o tcheco por alguns anos mais. Eu queria voltar pro francês, mas acho que se eu tentar qualquer atividade que me fizesse sentir outro peso de responsabilidade, eu viraria o coringa.

Eu queria voltar a dançar. Também queria fazer parte de mais grupos, como o grupo do clube do livro. E queria deletar o instagram, o bluesky e o facebook, e viver sem precisar olhar a tela pequena e a tela média só pra aplacar a ansiedade que me aflige desde sempre. Quais eram as minhas chupetas antes da tela? Eu tento, tento, mas não consigo lembrar.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

33

Marte,
Eu acho que li menos livros nesse último ano, porque meu tempo foi apertadíssimo. Mas eu finalmente vejo uma luz no fim do túnel dos amigos: talvez eu os faça! Eu agora frequento um clube do libro de mulheres latinas, e é um dos únicos lugares aqui em que sinto mais eu - seja lá o que esse "eu" signifique. Ainda estou tentando me encontrar; acho que vai ser uma tarefa pra uma vida inteira.
Eu ando bem cansada, e li online que talvez seja síndrome de Ulisses. Talvez eu volte pro Brasil; talvez eu decida entrar de cabeça em outro hobby, como costurar ou brincar com cerâmica fria pra não me sentir tão maluca.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

sem tempo

 uma fermata em cima de todos os prazeres

os deveres em semifusa