sexta-feira, 6 de maio de 2022

Como desaparecer completamente

Ninguém nunca me ensinou nada sobre responsabilidade afetiva, mas o catolicismo e a culpa católica sempre correram nas minhas veias como lava. A culpa por não conseguir arrumar o mundo - que eu comprei do meu pai, por o ver constantemente tentando e não conseguindo. A culpa por não conseguir salvar as pessoas que estavam ao meu redor, fossem conhecidas ou não. Não sei se é nítido que eu sou essa pessoa que acaba carregando muito peso e internalizando sentimentos, mas sei que ao longo da vida eu fui amiga de muita gente que fez com que eu me sentisse ainda mais culpada. 
O fato de eu ser uma pessoa quebrada ajuda, eu acho. Talvez os amigos que aparecem e também estão quebrados confiem em mim para mostrar que estão quebrados. Mas eu não sou assim o tempo todo. De vez em quando eu estou bem. E talvez isso faça parecer pro mundo que eu sou forte o tempo todo, e aguento levar porrada o tempo todo. Que aguento mudanças de humor, patada, que aguento inconstâncias. Essas coisas que machucam aos poucos, e que a gente vai aguentando porque se diz "ah, meu amigo só teve um dia ruim. Ele merece que alguém aguente um dia ruim. Eu sou amiga, amigo serve pra isso". 
E assim a gente vai levando. 
Ontem uma amiga disse que eu tive muitas amigas que cometeram abusos comigo, e eu só olhei pra ela com vontade de chorar.
"Eu sempre tive homens me abusando psicologicamente, mas nunca mulheres. Parece muito mais cruel", ela me disse.
Eu não sei se foi abuso ou não, mas sei que sempre me senti culpada. Porque essas amigas precisaram de mim, e eu não estava lá - porque eu tenho as minhas próprias demandas, porque me senti magoada pela grosseria com que elas me tratavam. Eu sempre me senti filha da puta, e todas as vezes que elas se afastaram, ficou um gosto amargo na minha boca. Eu sempre acho que poderia ter feito mais, mesmo sabendo ali no fundo que eu não teria condições. A memória de todas elas me assombra. E é tão sombra, que a cada erro que eu cometo com qualquer amigo, as memórias voltam. A culpa volta. Eu me sinto fisicamente doente, e tenho vontade de desaparecer da vida de todo mundo, como se eu tivesse 16 anos de novo e que sumir fosse resolver alguma coisa. Eu vou pra longe cada dia mais e não resolve nada. Por que desaparecer funcionaria?
Hoje eu acordei, abri o instagram e vi coisas que não queria ver. E eu senti vontade de chorar, de escrever, e ouvir as mais tristes do Radiohead enquanto sentia culpa. Eu tenho uma lista de coisas pra fazer e lugares para visitar, mas hoje só queria ficar sozinha no quarto, pedir comida chinesa gordurosa e chorar deitada na cama, porque sinto que não mereço nada de bom, nem que nenhuma pessoa se aproxime de mim. Porque no fim de tudo, é só isso que sou: uma filha da puta, que vai falar algo errado, e que vai fazer algo imperdoável pra qualquer pessoa que seja minha amiga.