domingo, 26 de fevereiro de 2023

Balzaca

 Oi Marte,

Esse último ano foi uma doideira. Tanto que nos últimos meses, a única maneira que eu consigo te descrever meu estado mental, é assim: doida. Sem açucarar mesmo. 

Eu entrei no doutorado, e hoje não tenho certeza se é isso que quero. Eu também mudei de país sem saber muito bem o que ia acontecer - aqui no leste europeu (que os locais chamam de centro-europa e ficam bem bravos se alguém diz que é leste) eu não sei a língua, o racismo clássico e o racismo cultural imperam, não faz sol direito e as pessoas são tão frias quanto o inverno que faz aqui... Mas é aqui que meu amor mora. Eu encontrei um amor tranquilo nesse último ano. É coisa mais fácil de todas, mesmo quando nós discutimos política até eu ficar fula da vida (e ele não perceber), ou ele acha semi-engraçado todos os meus rituais do TOC (e respeita). Talvez nosso futuro não esteja nesse país, mas eu sei que meu futuro é com esse amor. Eu ainda não comecei as aulas de tcheco, mas eu sei falar miluji tě - e por enquanto é isso que importa.

(É mentira. Eu preciso aprender tcheco urgentemente. Mas eu também preciso aprender hebraico urgentemente, pro doutorado. Tudo é urgente na minha vida agora, e meu grande problema é que quero andar cada vez mais devagar)

Esses dias eu falei que meu relacionamento mais duradouro era com o Duolingo; eu estou fazendo lições todos os dias há 1197 dias. Mas acho que meu relacionamento mais antigo é com você, Marte - essa pessoa que não sei quem é, mas que todos os anos vem aqui me desejar coisas boas. Eu espero que sua vida esteja tranquila. Obrigada por todos esses anos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

doida

 todas as coisas girando ao mesmo tempo dentro da minha cabeça

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

vai ficar tudo bem (eu acho)

 eu me sinto como se estivesse acordando. saindo de um longo período de sono em que eu não descansei de verdade, mas corri perdida de um lado para o outro até encontrar um rumo meio incerto. ainda faço tudo em câmera lenta, como (quase) qualquer um que acorda, mas ao menos estou acordando.

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um dos meus objetivos desse ano, além de voltar aos meus passatempos de infância (fazer pulseira e cordão de miçanga e pintar com lápis de cor e aquarela), é tentar segurar a hiperestimulação a que sempre forcei minha cabeça. eu sinto que vai ser uma daquelas "tarefas de vida" - difícil pra caralho, vou falhar sempre, mas não vou desistir. só sei que do jeito que está, não dá mais.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

"last year's wishes are this year's apologies"

 eu não sei o que estou fazendo, mas tenho certeza que não estou feliz. aí penso na quantidade de pessoas que queriam estudar e me sinto culpada por não estar feliz. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Praga

 A barra do meu computador me diz que faz -1C lá fora. Eu fui à cozinha, e tinha uma espécie de névoa no céu, mesmo cedo. Eu acho que nunca vou me acostumar com esses dias curtos de inverno, que acabam 16h da tarde. A neve só é bonita nas fotos. Mas disso eu tinha uma desconfiança quase certa; estar nesse continente só confirmou que sou alguém tropical.

O peso de não saber hebraico fica cada vez maior, a cada dia que passa. Minha garganta dói, a pele do meu rosto age de forma estranha, meu couro cabeludo chora. Pode ser o clima, pode ser a água, pode ser a quantidade de cremes e óleos que eu uso para controlar esse cabelo que não gosta de ser controlado. Mas também pode ser emocional - porque eu não sei hebraico, porque eu ainda não tenho uma rede de apoio nesse país, e não tenho vontade de sair pra procurar pessoas que estejam dispostas a fazer parte desse rede de apoio. Sendo franca, talvez seja porque eu não tenha lá toda essa vontade de fazer parte da rede de apoio de ninguém. 

Aqui todos são educados, mas ao mesmo tempo rudes. Parece que todos eles internalizaram o frio que faz aqui a maior parte do ano. Não sei se aturo ou surto, não sei se tenho forças pra deixar que o meu verão se faça presente pelo menos na minha bolha. Ainda me sinto acuada. Ainda não posso ser eu mesma. Talvez seja por isso que os dias passam sem que eu perceba - porque por enquanto, eu não estou morando em mim.